CARLITO MAIA (1924-2002)
Copos de leite e suavidade

Não eram apenas flores que Carlito Maia enviava. Ele tinha a amabilidade de mandar entregar um envelope cheio de copias dos melhores textos, das melhores charges, das melhores estrofes e caricaturas. Digo melhores porque o bom senso, a atitude e o gosto de Carlito Maia fizeram parte da minha escola. Ele tinha sede em estar presente disseminando cultura, insights e informações. Pena ter falado com ele tão pouco, mas tive a honra, em 1994, de receber um arranjo de copos de leite e seu desejo de sucesso por um dos meus trabalhos. Serei eternamente grata por ser uma das muitas vitimas da sua suavidade. Muita luz, Carlito Maia. Meu Adeus.

Ivanna Fabiani

carta para o Observatório da Imprensa, 3/7/2002

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'rede carlito maia de comunicação' 


 

 

 

 

 

 

 

 

 


amigos

Carlito manteve uma vasta correspondência com amigos muito diletos. Aqui estão alguns trechos dessa volumosa troca de cartas carinhosas, momentos luminosos da comunicação humana na busca do entendimento e do sentido de nossa existência. Certamente, os elogios rasgados que recebeu pelo correio de figuras tão ilustres infundiram ânimo para que continuasse fazendo o que mais gostava: semear amizades.

Otto Lara Resende
Carlos Drummond de Andrade
Florestan Fernandes
Antonio Candido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


imprensa

A intensa atividade epistolar transbordava nas seções de cartas do leitor. Ávido leitor de jornal, não perdia oportunidade de comentar (quase sempre protestando) tudo que lia. No Painel dos Leitores da Folha de S. Paulo era presença constante com textos curtos e ácidos.

Folha de S. Paulo
Painel do Leitor

1991

1994
1995
1996
1997
1998
2000
2002

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


flores
Os ramalhetes de Carlito enterneciam seus destinatários e iluminavam eventos. A estréia de uma peça, o lançamento de um livro, um ato político ganhavam colorido especial com suas braçadas de flores. Junto, os destinatários recebiam pequenos tesouros - os textos recolhidos por Carlito ao longo da vida. Leitor voraz, não se contentava apenas com a fruição do que lia. Compartilhava com amigos e homenageados tudo aquilo que merecia ampla difusão. Eram poemas, pequenos excertos ou pensamentos recolhidos aqui e ali. A coletânea - aquele "farto material educativo-filosófico-humanista" nas palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade - vinha com uma esperançosa advertência: "as utopias estão soltas por aí".

alguns xerox
charge 1
charge 2
charge 3
cuidaids

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Otto Lara Resende

"(...) Gratíssimo pelas suas providências tão rápidas, geniais. Vou ficar aguardando e, se você me permite o palavrão, prelibando a chegada da tese da Adélia sobre o Álvaro Lins [no dia anterior, Otto Lara Resende havia pedido a Carlito que localizasse e enviasse para ele um exemplar da tese de Adélia Bolle sobre o escritor Álvaro Lins que tratava, num trecho, da "migração interior": "a pessoa não emigra para fora da sua cidade, nem do seu país, mas para dentro de si mesma. Fecha-se totalmente para o mundo e apresenta uma máscara de conformismo"].

Quanto à migração interior, seu belo texto cai muito bem. Você, com esse temperamento participante, generoso, nesse ímpeto de jogar-se, gastar-se, Quixote, você a última coisa que faria era migrar para dentro. Você não imigra. Você emigra. Pula, salta, atira-se.

Eu é que, mineiro de beta funda, beta esgotada, pobre, sem ouro, ex-outro, miséria post-aurífera, eu sou do fundo de beta (ou de gaveta). Defeito tremendo.

Vi o resto da sua correspondência - Nelsinho Motta, Chacrinha, tudo que prova a sua disposição felina, de tigre.

Tem Minas e mineiro pra tudo. Inclusive para as suas grandezas e temeridades"

Otto Lara Resende (22/10/75)

"A sua atividade me impressiona. E me faz pena. Veja se me entende. Você não pode ficar assim, de veias abertas, dando-se com essa generosidade maluca. Você precisa poupar-se um pouco, desacelerar, diminuir o ritmo, cuidar também de você. A justiça começa em casa, diz São Paulo."

Otto Lara Resende (6/2/76)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Carlos Drummond de Andrade

"A minha idéia de uma antologia de poesia social brasileira está morta e enterrada. Nem sequer guardei a documentação coligida. Desisti quando verifiquei que a maior parte dessa poesia era social mas não era poética, ou era apenas poética e nada tinha de social. Acho difícil, mesmo agora, fazer-se uma antologia boa deste gênero igualmente difícil. Mas sou grato a você pelo espontâneo oferecimento de colaboração.

Li e apreciei muito os (...) papéis que me mandou. Você é único. O texto sobre responsabilidade social dos meios de comunicação, excelente"

Carlos Drummond de Andrade (Rio, 14/11/80)

"Na volta da esperança
um princípio de vida:
ser outra vez criança
por toda, toda a vida.

Ao Carlito Maia, sob a inspiração do nosso Chaplin, meu desejo de coisas boas, simples e amorosas."

Carlos Drummond de Andrade (Rio, 1981-1928)

"Que rosas mais rosas e mais rosas, em cor e perfume, as que você nos mandou! Minha mulher e eu ficamos encantados. Só não me encantei foi com a minha incompetência para tomar parte em júris, cívicos ou não. Eu já tinha escrito a você dizendo isto, quando recebi a sua mensagem ou apelo temido. Não me queira mal, Carlito: estou solidário com todas as críticas à Lei de Segurança Nacional, mas não tenho jeito de me exibir em público. Sou todo papel impresso, nada mais."

Carlos Drummond de Andrade (Rio, 30/4/83)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Florestan Fernandes

"(...) Não sou pessimista como você. Os seus artigos às vezes me deixam perplexos. Você é um lutador de fibra e um homem que confia na massa do povo. Além disso, empenha-se em causas que outros julgariam românticas, pois são as causas da Humanidade em luta contra a barbárie. Como disse uma vez Lênin, é preciso sonhar. Você sonha até quando está acordado, pois o sonho dos que defendem a revolução popular e democrática não nos surpreende dormindo; no entanto, quanto pessimismo espalhado aqui e ali. Porque? Não se pode fazer tudo nos limites de uma geração. Portanto, o nosso papel é comparável aos corredores que se esforçam por entregar o bastão aos companheiros antes dos outros. Que mais poderemos fazer? É preciso confiar no esforço coletivo e alguém bamba nos esportes como você sabe disso melhor do que ninguém. O resto depende de oportunidades que não podemos criar sozinhos ou à luz da razão".

Florestan Fernandes (14/9/84)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Antonio Candido

"Tenho três mensagens suas na mão. Você inventou alguns métodos notáveis para chamar a gente à realidade e à responsabilidade. Inclusive se jogando pessoalmente como tema, abrindo aquelas zonas da alma que podem ajudar os outros, e, sem a menor exibição, ensinando a vencer os pudores da omissão. As citações e frases que você semeia são oportuníssimas, como os casos que seleciona. No ano passado você mandou flores e palavras quando eu coordenava uma mesa redonda sobre cultura em Cuba. Encerrei lendo o que você dizia. Foi uma tempestade de aplausos.

A 'Prova dos 9' é um exemplo perfeito do que referi: a confissão sem exibição, que abandona o ângulo pessoal restrito para se tornar auxílio, esperança e solidariedade. As suas mensagens estreladas enaltam e ajudam."

Antonio Candido (Poços de Caldas, 26/11/85)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Folha de S. Paulo (16/12/1991), p. 3

"O Amor como base, a Ordem como meio e o Progresso como fim", tripé em que se apoiou o filósofo francês Augusto Comte (1798-1857) para sistematizar a filosofia do positivismo, abraçada pelos generais anti-monarquistas, desaguando na República dos Bananas (15/11/1889). Mas na hora do dístico do novo pavilhão nacional, a confa: queriam o tripé de Comte, sim, mas implicaram com o 'Amor' ('parece coisa de viado', teria dito um), daí só Ordem e Progresso. Se fossem Acordem e Progresso até que eu topava, mas, não, e deu no que deu. Amputaram a perna do 'Amor' no tripé, sempre caindo pelas tabelas, claro, tripé com duas pernas não se mantém em pé. Venho lutando, faz tempo, com o precioso apoio de Otto Lara, para que o 'Amor' esteja não só no lema como no coração dos governantes (os que o têm). Acho, porém, que uma bandeira sem vermelho não ta com nada: que tal um coração bem vermelhão na parte superior do globo azul do auriverde pendão? Como homem de comunicação, estou certo de que renderia boas manchetes na imprensa mundial. 'Brasil tem amor na bandeira!' O Brasil da gente se amando adoidado, a luz no fundo do túnel - uma glória. Então, vocês aí do Congresso? Amor, Ordem e Progresso! Salve o Amor! Viva o Brasil! Ah, só respeito a bandeira quando confio em quem a está empunhando.

Carlito Maia